Cultura tradicional
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A cultura tradicional croata é caracterizada pela sua diversidade excecional. As condições ecológicas da Croácia e as influências das culturas com as quais os croatas contactaram ao longo da história (mediterrânica, centro-europeia, balcânica antiga, oriental, etc.) condicionaram o desenvolvimento de três modalidades espaciais da cultura tradicional croata, ou seja, de três culturas regionais específicas: panónica, dinárica e adriática.
A zona cultural panónica era caracterizada pelo cultivo de cereais, linho e cânhamo, tal como pela criação estável de gado de grande porte (cavalos, bois). As pessoas viviam em casas térreas com telhado de palha, feitas de madeira ou vime coberto de terra (oeste) e de barro compactado ou tijolos crus (leste). Ao longo dos rios Kupa e Sava predominavam casas de madeira de dois andares, construídas a partir de antigas palafitas. A mobília era alta. Entre os ofícios domésticos, eram singularmente desenvolvidas a tecelagem em tear horizontal e a cerâmica em roda de pé. Entre as expressões artísticas, era particularmente interessante a decoração (pintura/šaranje) de cabaças. As roupas eram feitas de linho, densamente plissadas, com ricas decorações tecidas ou bordadas, complementadas por coletes de tecido de lã cardada e couro, amplas capas de tecido de lã cardada ou casacos de pele e mocassins largos, chamados opanci kapičari, ou botas. As mulheres usavam colares de coral e contas de vidro e, na Eslavónia, adornavam-se com moedas de ouro. Características eram as procissões anuais de jovens pela aldeia em ocasiões de festas para recolher presentes (jurjaši na festa de São Jorge, kraljice ou ljelje no Pentecostes, ladarice no Solstício de Verão, betlehemari na véspera de Natal, etc.) e ricos costumes de casamento. As tradições musicais e de dança também são diversas.
Uma característica especial de Međimurje são os cantos monofónicos baseados em escalas medievais (os chamados modos gregorianos), e dos instrumentos utilizam-se cítara-bordun, címbalo e violino, acompanhados por danças em pares (influência da zona alpina). A dança mais famosa do noroeste e centro da Croácia, drmeš, é dançada em pares ou em pequenas rondas à música de um conjunto de cordas chamado guci. A dança em rondas é típica da Eslavónia e Baranja, acompanhada pela música de gajde (gaita de foles), que foi completamente substituída pela tambura (instrumento de cordas dedilhadas) até ao século XX.
Licitar, doce de gengibre, multicolorido e decorado, tradicionalmente produzido no norte da Croácia, geralmente em forma de coração. Os artesãos, produtores desses doces de gengibre, também produzem bebidas de mel e objetos de cera. O seu artesanato está incluído na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.
Na zona cultural dinárica (Croácia montanhosa e interior da Dalmácia), predominava a criação de gado de montanha (ovelhas e cabras). Os pastores com grandes rebanhos de ovelhas permaneciam nas montanhas no verão e nas zonas costeiras no inverno, utilizando currais e cabanas móveis (gado de transumância). No tipo alpino de criação de gado, na primavera, as famílias mudavam-se das aldeias nos vales para habitações (os chamados stanovi) a maior altitude, onde tinham terrenos cultivados e campos de feno, e daí, nos meses de verão, para pastagens nas altas montanhas. No outono, colhiam as culturas dos campos e regressavam à aldeia antes do inverno. Na Croácia montanhosa, as casas eram predominantemente feitas de madeira, muitas vezes com um piso térreo de pedra, telhados altos e íngremes cobertos com tábuas de madeira. A mobília era baixa. O artesanato doméstico incluía a produção de tecidos de lã para mobiliário e vestuário, a produção de tecido de lã cardada enrolado em gramadeiras movidas a água e a cerâmica feita na roda de oleiro. Os pastores eram especialmente hábeis a esculpir madeira. Os trajes femininos consistiam numa camisa de linho de corte direito com bordados geométricos característicos no peito e nas bainhas das mangas, num avental de lã e num longo colete de tecido de lã cardada chamado zobun. Os homens usavam calças justas, também de tecido de lã cardada, e, por cima das camisas, três camadas de longo colete, do mesmo material, um cinto largo de couro e várias camadas de meias de lã decoradas, de novo, com tecido de lã cardada. Do tecido de lã cardada também foram feitos gorros rasos vermelhos, usados tanto pelas raparigas como pelos homens, enquanto as mulheres casadas cobriam a cabeça com um lenço branco. Como calçado, eram usadas mocassins leves (opanci). As roupas festivas eram complementadas por várias e abundantes jóias de prata e, nos homens, armas decoradas. A vida social caracterizava-se por formas específicas de parentesco não consanguíneo (confraternização, compadrio). A tradição musical é marcada por uma forma especial de cantar, ojkanje, que aparece como refrão para o verso em vários tipos de canções curtas (rozgalice, vojkavice, treskavice), semelhantes também às formas recentes de rera e ganga. Canções narrativas mais longas que descrevem feitos heróicos eram interpretadas por cantores chamados guslari, que acompanhavam o seu canto tocando gusle, instrumento de cordas com uma corda. Uma dança típica é a dança chamada nijemo kolo/ronda silenciosa (também conhecida como vrličko/ronda de Vrlika, ličko/ronda de Lika, ou sinjsko kolo/ronda de Sinj), executada com grandes passos e saltos sem acompanhamento musical.
Renda, trabalho decorativo de malha, feito de vários fios, inicialmente parte de peças de vestuário, mais tarde um item decorativo independente. Na Croácia, a renda é feita com agulhas (ilha de Pag), com bilros (Lepoglava, em Hrvatsko Zagorje) e com fios de agave (ilha de Hvar), estando incluída na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.






Na zona cultural adriática, a população dedicava-se à pesca, ao cultivo de azeitonas, vinhas, figos e amêndoas, bem como à criação de ovelhas e cabras. Hortaliças e, em menor escala cereais, eram cultivadas em pequenos campos, em socalcos. Utilizavam-se plantas selváticas (por ex. giesta para fibra, alfarroba). O transporte marítimo e o comércio também eram importantes. As casas eram de pedra, na maioria das vezes estreitas e altas, com telhados cobertos com telhas cilíndricas ou lajes de calcário cortadas. Possuíam também lareiras abertas, equipadas com um exaustor e utensílios típicos do Mediterrâneo (grelha, cremalheira, fole). O traje desenvolvia-se sob a influência dos ambientes urbanos. A vestimenta masculina era caracterizada por elementos gerais do Mediterrâneo, como calças largas com pregas e calças curtas e gorros de lã em forma de cone. A vestimenta feminina consistia numa camisa de linho sobre a qual se usava uma saia de tecido de lã cardada em forma de sino, com alças, cingida com um cinto de lã ou seda. Eram populares jóias de metais preciosos, complementadas por contas de coral ou pérolas, muitas vezes feitas com a técnica da filigrana. Na época do Natal e Ano Novo, era costume desfilar por aldeias ou cidades e dar boas-festas com canções e coleta de presentes (koledanje). Costumes de carnaval também eram muito comuns no período que antecede a Quaresma. Uma característica distintiva da expressão musical folclórica da Dalmácia é o canto de klapa, canto polifónico em grupos mais pequenos, as chamadas klapas, sem acompanhamento instrumental. As danças de aldeia (linđo, poskočica) eram acompanhadas pela lijerica, um instrumento de três cordas, e as danças de cidade (šotić, kvadrilja) pela guitarra ou pelo bandolim. A música tradicional da Ístria e Hrvatsko Primorje é caracterizada por sequências tonais cromáticas (a mais famosa é a chamada escala istriana), nas quais se baseiam tanto as melodias como a execução da sopela (roženica), instrumento de sopro com um som muito penetrante. A referida música é frequentemente tocada em duas, uma pequena e outra grande, criando uma harmonia a duas vozes em intervalos curtos com terminações em uníssono ou oitava. A mesma harmonia a duas vozes é também criada no canto executado por um par de cantores. O som da sopela acompanha duas danças – balun e tanac.






No início do século XX, a população rural representava mais de 80% da população total da Croácia e ainda vivia, em grande parte, de acordo com os padrões tradicionais. Embora a cultura tradicional já tivesse começado a desaparecer lentamente durante o século XIX, sob a influência da modernização e da urbanização, este processo intensificou-se em meados do século XX. Numerosas manifestações da cultura tradicional continuam a viver hoje em formas alteradas e novos contextos, adquirem novos significados, tendo-se algumas delas tornado marcadores de identidade nacional, regional ou local. Tais são, por exemplo, os desfiles carnavalescos de tocadores de sinos (zvončari) da região de Kastav, a moreška, ou dança das espadas realizada na cidade de Korčula, os costumes ligados às associações cavalheirescas (kupmanije) em várias aldeias da ilha de Korčula, o desfile anual no Pentecostes, chamado kraljice o ljelje na Eslavónia e Srijem, a competição de cavaleiros Sinjska alka e muitas outras. A música, as canções e as danças tradicionais as mais das vezes são apresentadas em festivais folclóricos e em diversas cerimónias oficiais, com artistas vestidos em trajes folclóricos. Os eventos mais famosos do género são o Festival Internacional de Folclore de Zagreb, os Outonos de Vinkovci, os Bordados de Đakovo e o Festival de Klapas Dálmatas em Omiš. Para além de numerosos ranchos folclóricos amadores, na Croácia também existe um conjunto profissional (o único do género) – Conjunto Croata de Dança e Canto Folclórico Lado (fundado em 1949) que se dedica particularmente ao cultivo da tradição folclórica croata.
A Croácia tem 19 bens inscritos na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO:
- fabrico de rendas
- canto a duas vozes em escala istriana (ou seja, numa sequência de escala em que um semitom e um tom alternam consecutivamente), típico da Ístria e Hrvatsko Primorje
- Festa de São Brás, padroeiro de Dubrovnik (3 de fevereiro)
- desfile anual de primavera das kraljice (rainhas) ou ljelje de Gorjani
- desfile anual de carnaval de tocadores de sinos (zvončari) da região de Kastav
- procissão da Via Sacra (Za križen) na ilha de Hvar (durante a Semana Santa)
- arte de fazer brinquedos infantis tradicionais em madeira da região croata de Zagorje
- Sinjska alka, torneio de cavaleiros em Sinj
- artesanato de biscoitos de gengibre no norte da Croácia
- bećarac, canção com ou sem acompanhamento instrumental, de conteúdo alegre (muitas vezes até dissoluto), das regiões da Eslavónia, Baranja e Srijem
- nijemo kolo (ronda silenciosa) do interior da Dalmácia (Dalmatinska Zagora)
- canto de klapa
- dieta mediterrânica no Adriático croata, na sua costa, ilhas e parte do interior
- popevka (canção popular tradicional) de Međimurje
- arte da construção de muros de pedra seca
- arte da falcoaria
- Festividades de São Trifão e a ronda (kolo) de São Trifão
- tradições de criação da raça Lipizzan
- transumância – migração sazonal de gado.
Na Lista do Património Cultural Imaterial da UNESCO que Necessita de Salvaguarda Urgente encontra-se a expressão musical tradicional chamada ojkanje. No Registo de Boas Práticas para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO estão inscritos o projeto do Ecomuseu de batanas (barcos de madeira tradicionais de Rovinj) e um jogo folclórico tradicional – pljočkanje.